segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tarde demais


Fazia alguns meses. Na verdade fazia muito tempo. Tempo suficiente para ninguém se lembrar. Ela não tinha notado que ele estava lá. Ela só ria e falava, falava demais. Contava as novidades e como estava feliz com as coisas que tinha acontecido. Ele a assistia de uma forma que nunca fizera antes. O modo como ela gesticulava e ria olhando para os lados quando estava sem graça, nunca tinha notado.
Começou a pensar sobre ela, sobre todas as coisas que ela jurou sentir por ele um dia e ele nunca retribui. Nunca. Nenhuma mensagem, nem seque um telefonema. Trocava os compromissos com ela por qualquer outro coisa que aparecesse. Qualquer coisa era melhor, ou pelo menos parecia.
Percebeu que enquanto ela falava os caras em volta a reparavam com delicadeza. Eles estavam completamente interessados por ela. Ela não era nem um pouco atraente, não para ele. Na verdade não era até aquele momento.
Outra pessoa começou a falar e falar, ela reparava com cuidado, sorria e concordava ao decorrer da história. O cara sentado ao lado dela pegou a mão dela levemente, ela se virou para ele e sorriu sem graça. O cara apertava lentamente os dedos dela entre os dedos dele. Ela disfarçava umas caretas. Estava gostando.
- O senhor deseja mais alguma coisa?
- Não, obrigado.
E a garçonete levou tudo que restara. Quando olhou para a outra mesa ela já tinha saído com o cara dos dedos.
Pegou seu casaco e saiu. O táxi o deixou na porta de casa, procurou a carteira para pagar, mas não estava mais com ele, não conseguia encontrar.
- Não se preocupe – disse o taxista um pouco velho – acontece às vezes...
- Me desculpe.
- A corrida foi rápida... Deixa isso pra lá, sempre te vejo no bar, na próxima vez cobro essa corrida.
- Obrigado.
E lá se foi o taxista. Ele seguiu até sua porta e quando foi pegar as chaves achou a carteira. Mas já era tarde o taxista já tinha virado a esquina, mas sentiu vontade de correr atrás dele e dar-lhe o dinheiro, sentiu uma vontade imensa de voltar no bar e se desculpar para ela e dizer que tinha sido um idiota esse tempo todo, mas já era tarde, o taxista já estava longe, e ela estava nesse momento se divertindo com o cara dos dedos em algum lugar, e ele ficou.

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