quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Carta aberta: Por que quero ser professora?

Sociedade dos poetas mortos (1989) - "O que quer que digam, palavras e ideias podem mudar o mundo."
Desistir do curso de direito e explicar a todos meus amigos e familiares que agora quero cursar letras não está sendo fácil. Portanto escrevo essa carta aberta a todos que por preocupação com minha futura carreira, com meu estado mental ou por simples curiosidade  para dizer os motivos que me fazem ensejar essa profissão pouco valorizada em nosso país e pelos nosso alunos.

Minha mãe sempre disse que desde pequena eu queria ir à escola, ela dizia que eu via outras crianças maiores indo estudar e não parava de inferniza-la perguntando quando chegaria o meu dia. Esse dia chegou, e a partir daí uma paixão nasceu em mim. Eu não me lembro da minha primeira professora, porque ela me detestava, mas lembro-me muito bem da segunda, Vânia, se não me engano. Foi com ela que aprendi o alfabeto, o alfabeto silábico e li minha primeira palavra: belo. Conheci os números também, mas os mesmos não me despertaram nenhuma curiosidade. Cada palavra nova que aprendia me encantava
.

Li meu primeiro livro por volta dos 5 anos, a bela e a fera de uma coleção da Disney da minha prima (e até hoje partilhamos livros), e não sabia onde enfiar tanta alegria por ter conseguido ler sozinha pela primeira vez. Afinal meus pais não incentivavam muito a leitura em casa e aprender a ler foi como uma grande descoberta. Então comecei a ler de tudo, por vezes ficava irritada com meu pai por ele dirigir em alta velocidade e eu não conseguir ler tudo que via pela rua. Na minha primeira série do ensino fundamental ganhei meu primeiro livro de uma professora, chamava-se Ludy vai à praia, foi o primeiro livro com mais de 30 páginas que li, foi um desafio, e foi incrível terminar. A partir daí queria ler cada vez mais. Eu lia fábulas, gibis, revistinhas de poema, de tudo um pouco. Lembro que achei um pedaço de madeira velho em casa e fazia ele de lousa, escrevia as fábulas dos livrinhos inteiros na minha “lousa” e lia para meus alunos imaginários. Eu fazia isso todas as tardes.

Ao longo do ensino fundamental tive professores incríveis, e amava cada dia mais as aulas de português. As professoras me emprestavam livros, indicavam e sempre me incentivavam a ler cada vez mais. Estudei a maior parte em uma escola pública, conforme os anos foram passando vi muito dos meus amigos se desandarem, perderem o gosto pelo conhecimento, seja por falta de incentivo ou por motivos que desconheço. Mas persisti. Finalmente minha escola abriu uma biblioteca e lá passava a maior parte do tempo que podia. A briga no intervalo por um espaço na biblioteca chegava a ser engraçado, afinal mesmo com poucos livros e um espaço pequeno era um espaço concorrido para aqueles que partilhavam da mesma paixão que eu. A bibliotecária/professora era incrível, me indicava livros e me incentivava muito e chegava a brincar dizendo que eu seria professora ou escritora, eu ria e falava que ia ser arquiteta, afinal esse era o sonho do meu pai.

Então nos livros comecei a encontrar um refúgio para os problemas que passava em casa, eu juntava todo dinheiro que meus pais me davam durante o mês e passei a comprar livros pela internet sozinha (desde então isso não mudou tanto), consequentemente comecei a escrever. Escrevia no meu diário, poemas, cartinhas de amor, histórias sem sentido...

A qualidade de ensino da minha escola começou a piorar cada ano que passava e muito dos professores que adorava não conseguiam mais ministrar suas aulas por conta dos alunos que não se interessavam, foi triste, pois via os professores incríveis e brilhantes que tinha não conseguirem ministrar uma aula. Então no ensino médio mudei para um colégio particular. A transição foi difícil, mas foi lá que me encontrei. Tive minha primeira aula de literatura e pensei: uau, que incrível! Descobri quem era Machado de Assis, Jorge Amado, Álvares de Azevedo, entre outros. Meu professor tinha verdadeira paixão pelo que fazia e transmitia toda matéria com facilidade, achava incrível ver a evolução do mundo através da arte da escrita. Tive aulas incríveis de história também, que despertaram mais ainda minha curiosidade sobre o mundo, sobre as pessoas. Então comecei a me imaginar dando aula e passando conhecimento para outros jovens, fazendo outros jovens se interessarem por aquilo, afinal é importante. E isso começou a florescer cada vez mais dentro de mim.

Aprendi muito com meus professores, não só através das matérias ministradas, mas pelos seres humanos incríveis que eram aquelas pessoas. Através dos longos debates, dos conselhos, dos puxões de orelha (que foram muitos da minha professora de química) fui me tornando quem sou hoje e aprendendo o real valor da educação. Isso me inspirou de alguma forma, pois se aquelas pessoas conseguiram me transformar tão drasticamente, eu também poderia fazer isso com outras pessoas, eu poderia mudar outras vidas assim como esses professores mudaram a minha.

Entrei na faculdade de direito por conta do retorno salarial que a profissão me daria. Cursei um ano e meio e eu realmente gostava. Mas não me imaginava advogando, eu queria dar aulas, sonhava com um mestrado, em escrever livros, em viajar o país palestrando, conhecendo pessoas e ajudando-as. Eu achava chato ter que ler certos livros, estudar certos autores, aquilo não era inspirador, era maçante e também frustrante, pois o que estudávamos em sala era muitas vezes contrário do que ocorria na realidade.  O curso tornou-se um fardo e então tomei a difícil decisão de desistir.

Eu ainda não comecei a cursar letras, mas já tomei minha decisão, quero cursar história se possível também, eu quero ser professora. Quero ser professora porque espero inspirar mais pessoas a terem vidas melhores, conhecerem o mundo em que vivem e sua história, ensinar a essas pessoas o quão importante é nossa cultura, as artes, a leitura, a educação. Eu quero fazer minha parte para um mundo melhor tornando outras pessoas melhores.

Finalizo esse texto agradecendo cada professor que passou pela minha vida. Por todos os conselhos, livros indicados, incentivos e por me fazerem ser o que sou hoje. Vocês são incríveis e devem continuar fazendo o que amam com paixão, apesar das dificuldades, acredito que um dia com certeza vocês serão reconhecidos e mais valorizados por todos. E para os leitores, valorizem a educação, seus professores, leiam mais, evoluam.


Com carinho, a simples história de uma futura professora.

Um comentário:

Poções de Arte disse...

Menina, que Deus te abençoe em seu novo caminhar!
É isso mesmo, temos que fazer o que está inerente em nosso ser.
Ao ler seu texto, me vi um pouquinho nele porque eu adorava ir para a escola, aprender, ler. "Comia" livros e também queria ler tudo que visse pela frente. Não entendia como alguém poderia não gostar de ir à escola, fazer a lição - pra mim quanto mais lição, melhor rsrs. Tive excelentes professores, mas meus pais me incentivaram muito.
Acabei indo pra área educacional também. Sou professora de Educação Física. Passei muitos apertos e acredito que, principalmente nesse nosso país, a educação está cada dia mais desvalorizada. O que é pregado é fama, fortuna e beleza. Infelizmente muitos pais influenciam seus filhos para essa parte - não precisa estudar, tenta ser jogador de futebol. Não precisa estudar, entra na política... É triste demais e a cada dia vemos professores lutando pra tentarem passar seus ideias com respeito e amor (marido também é professor).
Acredito que com todo esse amor e essa vontade que carrega, com certeza você fará a diferença na vida de muitos. Prossiga e lembre-se sempre do caminho que te levou até essa decisão, pois haverá momentos que vc se perguntará "o que estou fazendo aqui?", mas em qual profissão isso não acontece?
Te desejo o melhor e que Deus esteja com você!
Meu abração esmagador pelo Dia dos Professores (afinal vc já é uma de coração).
Márcia.

poderá gostar também:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...